“Está em nossas mãos dar a conhecer a literaturabrasileira a um leque bastante variado de leitores”

Maria Lucia Guimarães de Faria travou um envolvente diálogo com Émilie Audigier e Sophie Rebecca Lewis, que contaram de seus primeiros contatos com nossa língua e do fascínio por nossa literatura, em cuja lida aprofundaram a relação com nosso país. Émilie sintetizou o trabalho que vem desenvolvendo na universidade brasileira e no mercado editorial francês, ora analisando academicamente as traduções que nossos clássicos ganharam na França, ora vertendo para sua língua obras de ficção contemporânea. Sophie sublinhou a importância propriamente política de fazer circular mundo afora a literatura escrita em português e partilhou experiências marcantes no desempenho dos papéis de editora e tradutora.

A internacionalização das literaturas é uma aventura quetem, entre seus protagonistas, esses espíritos abertos e dados àalteridade chamados tradutores. É o que se pode dizer de ÉmilieAudigier e Sophie Rebecca Lewis, que viram o Brasil como país capazde produzir uma ficção que, desde o século XIX, não deve nada à doVelho Mundo. Assim, em alguns anos de trabalho já fizeram circularna Europa contos e romances de muitos escritores brasileiros.

Émilie travou os primeiros contatos com tradução durantea graduação na Universidade da Provença, onde teve oportunidadede conhecer o estilo de Guimarães Rosa. O entusiasmo a levou adedicar a dissertação de mestrado às traduções dos textos do autormineiro para o francês. Em seguida, fez um doutorado ao final doqual defendeu uma tese acerca do trabalho empreendido por tradutoresfranceses com escritos de Rosa e de Machado de Assis.

Em movimento estimulado pelo seu próprio objeto de pesquisa,Émilie se inseriu no mercado editorial, onde desenvolveuprojetos dedicados à publicação em francês de escritores brasileirosem atividade, dos quais verteu vários livros para sua língua. Essaexperiência multifacetada lhe possibilita fazer palestras e organizaroficinas de tradução em que o campus e o mundo da ediçãoaparecem perfeitamente integrados.

Teoria e tarimba esbanja também Sophie, que congregaestudo e prática da tradução. Formada pela Universidade de Oxford,traduziu para o inglês diversas obras francesas, além de narrativas curtas publicadas originalmente em países francófonos e tambémcurtas publicadas originalmente em países francófonos e tambémlusófonos. Publicou esses trabalhos por diferentes editoras e revistas,junto às quais atua como agente literária.

Igualmente importante é sua função de editora da And OtherStories, editora inglesa responsável pela construção de um catálogobastante cosmopolita, no qual figuram ficcionistas de países de línguaportuguesa. E assim se explica que Sophie consiga abordar as relaçõesentre autor, tradutor e editor com um senso democrático facilitadopela alternância entre pontos de vista.

Boa parte dos caminhos percorridos por Émilie e Sophie aparecenesta entrevista, realizada em 2014, durante o V Encontro doFórum de Literatura Brasileira Contemporânea. Ambas contam históriasde tradução, com realce para as soluções encontradas para ospercalços oferecidos pelos textos. Também avaliam a diferença entretraduzir os clássicos e os contemporâneos. Finalmente, passam dasdificuldades de traduzir a ficção de nosso extenso país ao destaque daliteratura como porta de acesso a camadas profundas do Brasil.

Maria Lucia Guimarães de Faria

Maria LuciaIIniciarei nossa conversa com uma pergunta simples,mas que pode nos ajudar a conhecer o trabalho de ambas: por que traduzirliteratura brasileira?

Émilie – Me formei em Literatura Comparada na Universidade da Provença,onde tive meu primeiro contato prático com o ofício de tradutora,por meio de uma professora brasileira que já havia traduzido parao francês algumas obras importantes, como Primeiras estórias, de JoãoGuimarães Rosa, e Iracema, de José de Alencar. A leitura dos livros doescritor mineiro, entre outros, não só despertou meu interesse pelaliteraturabrasileira como me instigou a conhecê-la mais profundamente,sobretudo em sua fase contemporânea. Esse encontro com aliteratura brasileira foi fundamental também para que eu me aproximassedeste país, que escolhi como meu segundo lar.

Sophie –  Trabalho no setor de tradução de uma editora, portantodesempenho uma função que ajuda a desenvolver um certo olharpolítico, no sentido de ouvir o que está sendo dito em outrospaíses. No caso da literatura brasileira, ela me faz pensar em quãodesconhecida é a língua portuguesa, apesar de sua importânciahistórica. Infelizmente, não há muitos textos em português – falomais especificamente dos textos brasileiros – traduzidos mundoafora e, por isso mesmo, transpô-los para o inglês é um desafio.Está em nossas mãos dar a conhecer a literatura brasileira a umleque bastante variado de leitores.

Maria LuciaO que as motivou, na qualidade de tradutoras, a sedebruçarem sobre a obra de nossos autores? O movimento inicial partiu de vocês mesmas ou se deu a partir de alguma demanda profissional?de vocês mesmas ou se deu a partir de alguma demanda profissional?Que gratificação vocês encontram nesse trabalho?

Sophie – Para mim, uma das grandes gratificações foi conhecer aobra de Rodrigo de Souza Leão. Em português, eu já havia lido algunscontos de outros autores, mas seu Todos os cachorros são azuis foi oprimeiro romance que percorri inteiro na língua do Brasil. Emborao Rodrigo não seja muito conhecido nem mesmo aqui, achei queseria uma voz forte o bastante para ultrapassar as fronteiras. Aindamais que sua literatura tem uma relação íntima – e até meio louca– com a pintura, a poesia e a reportagem. Claro, muitos escritoresjá trataram desse tema, muito já foi dito a respeito da mistura dosgêneros, mas o foco do Rodrigo é extremamente pessoal e, talvez,um tanto inusitado. De modo que apresentar ao mundo uma obracomo a sua me dá muita alegria e um enorme prazer. E poucoimporta que os centros de estudo e a mídia internacional não tenham– ainda – atentado para a importância da literatura brasileira e denossas traduções. Descobrir e conhecer profundamente a línguaportuguesa por meio da literatura brasileira é, em si, uma granderecompensa pelo trabalho realizado.

Émilie – Meu contato com a ficção e a poesia em língua portuguesaaconteceu primeiramente com a literatura de Portugal. Mas a literaturabrasileira sempre me atraiu. Eu ouvia falar dos escritores maisconhecidos, sem ter exatamente contato com o que eles haviampublicado, e ficava curiosa. Mais tarde, quando enfim mergulhei naobra de Guimarães Rosa, fiquei espantada e fascinada. Tanto queli a tradução em francês de Grande sertão: veredas em praticamente uma semana. Depois conheci Clarice Lispector, Machado de Assis,uma semana. Depois conheci Clarice Lispector, Machado de Assis,os clássicos. Dos contemporâneos, quase nada, pois é raro encontrarna França alguma tradução do que se produz aqui e agora. Além daeditora Métailié, uma das poucas editoras a demonstrarem interesseem publicar literatura brasileira atual é a Chandeigne, para aqual trabalho. Atento ao meu interesse pela ficção brasileira contemporânea,o conselho editorial me pediu uma sugestão para umapossível tradução e indiquei o volume de contos Faca, de RonaldoCorreia de Brito. A editora concordou, fiz a tradução e, em 2013,a coletânea foi lançada na França. Então, para mim, saber que umlivro brasileiro foi publicado em meu país basicamente graças a meuempenho é muito gratificante.

Maria LuciaPasso agora a questões mais técnicas que têm a vercom a atuação de nossas duas tradutoras. À Émilie, que trabalhou comMachado e Rosa, eu perguntaria se é mais fácil traduzir clássicos ouautores recentes. À Sophie, que tem mais experiência com traduções dofrancês para o inglês e somente há alguns anos começou a trabalhar como português, eu pediria que comparasse o grau de dificuldade de traduzirobras francesas e brasileiras contemporâneas.

Émilie –Ainda não tive oportunidade de traduzir nenhum clássicobrasileiro. O trabalho que fiz sobre Machado e Rosa foi de cunhoacadêmico. A grande diferença é que, no caso de uma nova traduçãode um texto clássico, temos à nossa disposição o histórico detraduções precedentes, que muitas vezes são primorosas a ponto dehaverem colocado o vocabulário em conformidade com o original, oque evidentemente pode servir de base para o que fazemos.

Quanto à literatura contemporânea, isso geralmente não acontece.Além do mais, a forma como os escritores trabalham a língua mudoubastante ao longo do tempo. Ronaldo Correia de Brito, por exemplo,tem uma linguagem bem sofisticada e nos impõe desafios tãograndes quanto os clássicos. Portanto, traduzir é, antes de tudo, compreenderque cada obra é singular. É aceitar o jogo do texto – que,no fundo, não possui regras –, permitir que tanto sua forma quantoseu conteúdo nos atinjam, assim como seu ritmo e sua sonoridade:tudo será importante quando se trata de fazermos uma traduçãode excelência.

Sophie – Recentemente assisti a uma oficina de tradução e acompanheio trabalho de uma das alunas sobre o mais recente romancede Ana Paula Maia, De gados e homens. A moça levou também umbook trailer, feito para promover o livro no mercado americano.Como o romance trata mais ou menos da relação dos homens comos bovinos, a tradução girou em torno do universo e dos dialetosdos caubóis. Achei a ideia interessante como tentativa de encontraruma maneira de tornar o livro compreensível para os leitores norte-‑americanos, ou, melhor dizendo, de tornar o universo ficcionalde Ana Paula Maia reconhecível pelos estadunidenses. Porém,me questionei se, atribuindo ao romance códigos adequados aojuízo do público norte-americano, a jovem tradutora não o estariadesabrasileirando. Em suma, embora a técnica tenha sua validade,precisa ser usada sem exagero e com todo o cuidado, sob pena dedescaracterizar a proposta estética do texto ficcional. O faroestenão corresponde ao interior do Brasil. E talvez o grande desafio dotradutor seja justamente encontrar uma linguagem que comunique as diferenças desses tipos geográficos, sem desfigurar a essência doas diferenças desses tipos geográficos, sem desfigurar a essência doambiente onde se passa a narrativa, onde estão inseridos os personagens.Afinal, estamos lidando com variações linguísticas, comas ditas gírias de uma determinada região, expressões dificilmenteencontradas nos dicionários – e isso nos obriga a procurar ummeio-termo entre recriar e ser fidedigno ao original.

Maria LuciaIsso vale para traduções tanto do português como doMaria Lucia – Isso vale para traduções tanto do português como dofrancês? Ou seja, os desafios são equivalentes ou você vê uma diferença,digamos, específica no português?

Sophie – De fato há uma diferença, intimamente relacionada àsSophie – De fato há uma diferença, intimamente relacionada àspróprias dimensões geográficas da França e do Brasil. De volta àquestão da variação linguística, a quantidade de dialetos encontradosno Brasil ultrapassa consideravelmente o número de dialetos daFrança. Em todas as partes do Brasil se produz literatura, cada umacom uma voz muito particular, todas se desenvolvendo de mododíspar. Para o tradutor, isso gera um problema, pois ele raramenteconsegue reconhecer tais diferenças, muito menos dar-lhes os devidoscontornos no instante de transpor o texto para sua língua.

Maria Lucia Certa vez, Paulo Bezerra, tradutor de Dostoiévski para o português,afirmou que ia “até o fim do inferno atrás do sentido das palavras”. Nopolo oposto, o poeta e também tradutor Haroldo de Campos propõe a traduçãocomo transcriação, considerando, como Walter Benjamin, que a traduçãoque não privilegia a forma se restringe à transmissão inexata de conteúdosinessenciais. Eu pediria que falassem sobre o posicionamento de vocês acercada relação entre forma e conteúdo, forma e sentido, tanto do ponto de vista teórico quanto do exercício prático do ofício de tradutoras. Às vezes, o profissionalteórico quanto do exercício prático do ofício de tradutoras. Às vezes, o profissionaltem uma posição teórica muito definida, mas a prática não acontececonforme o esperado. Eu gostaria de saber se vocês têm uma posição teóricae se conseguem manifestá-la completamente durante o trabalho de tradução,ou se, no decorrer do processo, são forçadas a fazer concessões.

Sophie – Em minha trajetória como tradutora e editora, tenho priorizadoo lado prático e mercadológico do trabalho com a literatura.Aprendi muito da técnica de tradução acompanhando a atividadede gente do meio que admiro muito; gente que possui uma metodologiaprópria, alinhada a conceitos teóricos basilares. No entanto,penso que, durante a tradução, o emprego restrito da teoria podeasfixiar a obra. Em outras palavras, traduzir sob os ditames da purateoria é correr o risco de trair o texto. Na tradução do francês para oinglês, há quem opte, por exemplo, por chegar o mais perto possívelda estrutura sintática do original. É o caso da tradução de MadameBovary, de Flaubert, pela famosa escritora e tradutora Lydia Davis.Acho isso difícil. Mais, até: arrisco afirmar que isso não é tradução.As línguas não funcionam do mesmo jeito. Ou seja, o tradutor precisaexercitar a qualidade da diplomacia – sempre em benefício dasensibilidade do leitor.

Maria Lucia A tradução que privilegia a forma é justamente atranscriadora. Seus praticantes entendem que, em vez de se fazer umaréplica morta e seca do original, deve-se tentar achar, na medida do possível,uma forma nova. Em vez de ficar preso a esse ou àquele sentido,convém, se preciso, contrariá-lo. A ideia é simular o movimento criadordo original na outra língua. Os debates passam por aí, não acham?

Sophie – Os melhores tradutores descobrem formas bastanteoriginais de recriar as estruturas sintáticas e semânticas utilizadaspelo autor. Realizam um trabalho hercúleo e muito impressionante.É de se acrescentar apenas que precisam respeitar determinadoslimites, sob pena de o resultado se mostrar problemático.

Émilie – Entre os pesquisadores, o debate acerca das relações entreteoria e prática é muito importante e bastante acalorado. Trabalheicom teoria da tradução e pude perceber que fundamentar nossoexercício apenas na prática ou apenas na teoria invariavelmenteconduz a algum tipo de frustração, seja de ordem profissional, sejade ordem pessoal. Quando comecei a me interessar pela literaturado Rosa – e não passava, naquela época, de uma tradutora amadora–, tinha uma posição sobre os outros tradutores que começoua mudar no momento em que me profissionalizei. Com a prática,pode acontecer de você abandonar o ponto de vista de um leitordespretensioso, que enxerga a esfera da narrativa estrangeirasob seu prisma íntimo, às vezes nacionalista, para se deixar contaminarpela língua com que está em contato, tanto quanto paratransformar o texto que tem em mãos numa obra representativade seu país. É uma questão de escolha, sobretudo editorial. Sejacomo for, você deve não perder de vista o leitor que o livro convoca.Em minha prática, me preocupo com a língua francesa e como leitor. Não posso deixar, por exemplo, que um trecho se mostrecanhestro em francês. A tradução precisa ter fluidez, de modo quea leitura seja, no mínimo, agradável. Em resumo, a teoria não ajudatanto assim no trabalho do tradutor. No fundo, ela é somente umposicionamento crítico.

Sophie – A esse propósito, vivi uma história curiosa como editora.Certa vez, um tradutor enviou, juntamente com o texto do russoOleg Pavlov que havia traduzido, uma explicação pormenorizadado trabalho realizado, com a sugestão de que eu a publicasse comointrodução do livro. Li com um certo horror sua explicação, porqueela não só apontava a dificuldade de abordar a linguagem técnica dePavlov como, nas entrelinhas, comunicava que também para o leitorseria complicado, já que até os russos se viam constrangidos peranteo autor. Segundo a avaliação do tradutor, apenas trinta por cento datradução poderia ser considerada bem-sucedida; o resto era ruim.Deliberadamente ruim, é importante frisar, o que havia exigido deleum trabalho descomunal de escolha de palavras e edição de texto.Um tanto desanimada, passei à leitura da tradução e, surpreendentemente,achei uma maravilha. Difícil e estranha, é verdade, mas comose fosse uma janela posta entre dois mundos: o da ficção e o darealidade. Quer dizer, a estratégia que esse tradutor usou foi exitosa,apesar de sua descrença em seus próprios esforços. É bom que se digaque publiquei sua tradução, mas não sua explicação.

Maria LuciaGostaria que vocês duas nos permitissem dar umaolhadela no ateliê de cada uma, no momento em que estão tomadas pelosuor, enfrentando as dificuldades do processo de tradução. Objetivamente,pediria que comentassem algum trabalho realizado. Começandopela Émilie, pensei na mencionada tradução de Faca, do Ronaldo Correiade Brito, que deve ter sido um grande desafio em termos de linguagem,mesmo para você, que atualmente mora no Brasil. Embora os dramashumanos sejam o tema principal dos contos, trata-se do livro de um cearenseque trabalha bastante com o contexto, os costumes e as tradições do Nordeste. Além disso, como você própria disse, tem uma linguagemdo Nordeste. Além disso, como você própria disse, tem uma linguagemmuito apurada. O que nos conta da experiência de traduzi-lo?

Émilie – Bom, o primeiro impasse surgiu no próprio título, queem português é curto, forte e extremamente significativo: Faca. Jána edição francesa ficou enorme: Le Jour où Otacilio Mendes vit lesoleil. Um título que não corresponde à proposta da coletânea, quetem em cada conto um personagem trazendo consigo uma faca, àespera de um final trágico. Sem esquecer que o próprio estilo doRonaldo é cortante. Por que, então, esse título em francês? Antesde tudo porque “faca” seria “couteau”, palavra francesa que sugeririaum livro mais de culinária que de literatura. A escolha do títulofoi bastante demorada. Após uma pesquisa acerca de todos os tiposde facas e objetos cortantes, cheguei a sugerir algumas alternativas,mas nenhuma deu certo. Aí propus “lame”, que é lâmina, só que emfrancês tem o problema sonoro, que levaria também a “l’âme”, “aalma”. Por isso também foi descartada. No fim das contas, quemescolheu o título foi o editor, que o retirou de um dos contos, o quedeu ao livro um aspecto, a um só tempo, poético, luminoso e meiomisterioso. Embora distante do sentido do título original, coubeperfeitamente para a tradução francesa.

Depois, à medida que avançava na tradução, precisei enfrentaroutros percalços, como a questão dos nomes dos personagens e doslugares – não os nomes próprios, que via de regra não se traduz,mas os que contêm alguma simbologia. Em vários momentos, oRonaldo se refere ao Rio São Francisco como Velho Chico: o francêsdificilmente associaria o nome próprio ao rio. Então acrescentamosum glossário que apresenta diversas referências importantes para a compreensão do livro. Inserimos também vocábulos regionais,a compreensão do livro. Inserimos também vocábulos regionais,assim como nomes de árvores do sertão, frutas e personagenshistóricos, como Zumbi, por exemplo.

Também tive de fazer um esforço tremendo para transmitir bem,para o leitor francês, algumas passagens complicadas, como osaforismos postos aqui e ali pelo autor. Hesitei se deveria traduzi-losliteralmente ou usar de algum provérbio equivalente, que existissena língua francesa. Mas optamos pela tradução literal. Uma dassituações embaraçosas envolvendo expressões regionalistas foinão saber ao certo o que fazer com uma sentença que dizia que “ashistórias não têm apenas princípio e fim, elas são sobretudo o meio,que é o tempo de maior duração, o de se comer juntos uma arrobade sal”. Essa “arroba de sal” é bastante difícil de traduzir. Eu queriamanter a imagem da “arroba de sal”, que é bela e vigorosa, mas oseditores discordaram e, dentre inúmeras possibilidades, escolhi umaexpressão francesa equivalente: “le temps d’ajouter des années à lavie” [“o tempo de acrescentar mais anos à vida”].

Maria LuciaSophie, como você editou traduções de literaturabrasileira, mas não as traduziu, pensei em perguntar a respeito doimpactante Thérèse et Isabelle, da escritora francesa Violette Leduc.Na tradução para o inglês que você fez desse romance, percebemos seuesforço mas também seu prazer. Importa-se de falar um pouco sobreessa combinação?

Sophie – Violette Leduc é uma autora meio escamoteada no meioliterário. Simone de Beauvoir a ajudou, mas também a dominou.Violette enfrentou grandes dificuldades para publicar, principal mente porque abordava o sexo com muita verdade. Entre suas narrativasmente porque abordava o sexo com muita verdade. Entre suas narrativasencontra-se um tipo de autobiografia, ou autoficção, em trêspartes, das quais a primeira trata de sua paixão por outra meninada escola religiosa. Depois a autora produziu diversos outros textos,cada vez menos convencionais, sobre os quais os editores diziam:“Isso é ótimo, mas não podemos lançar, pois será considerado ilegale nos criará problemas com a lei”. Assim, a primeira parte da autoficção,sobre a paixão adolescente, teve tiragens pequenas e ediçõescensuradas, até que, em 2000, a Gallimard a publicou. Apenas em2000! Ou seja: décadas depois do momento de escrita!

Pois bem: tive a honra de encarar o desafio de traduzir esse livro.Imagine quão provocativo pode ser um texto que põe às claras orelacionamento de uma menina introvertida e sua colega de escola.Além disso, retrata as condições de vida de estudantes que ocupamaposentos mínimos, asfixiantes, sem janelas, mas ao mesmo tempogozam de uma certa liberdade. Uma das dificuldades foi encontrarvocábulos em inglês para traduzir aquela realidade. Para “cubículo”,por exemplo, escolhi “box”, que definitivamente não acho adequado,mas poderia estabelecer uma relação com as gírias usadas pelasalunas quando se referiam aos cômodos onde dormiam. Por outrolado, poderia aludir à sensação que aquele colégio opressor despertavano íntimo de cada uma.

Quanto ao sexo, é um assunto que o francês se sente muito mais àvontade do que nós para tratar. Ao transpormos para o inglês essaconcepção “espontânea” francesa, somos obrigados a optar entrea frieza clínica, quase patológica, ou a pornografia escrachada.Mesmo para isso dispomos de poucas palavras e expressões. Parareconstruir, no inglês, o relacionamento sexual das duas meninas, precisei pesquisar literaturas lésbicas de todo o século, conversarprecisei pesquisar literaturas lésbicas de todo o século, conversarcom amigos e fazer verdadeiros ensaios. Foi uma aventura extenuante.Especialmente porque Violette Leduc adentra a psicologiados personagens e abandona as convenções da gramática. Ao final, aeditora queria limpar o texto, torná-lo impessoal, meio aos moldesde um best-seller. Precisei brigar para defender minha tradução:argumentei, apresentei as razões da autora e disse de sua vontadede produzir um romance realmente estranho.

Maria Lucia Pensando agora na experiência do leitor: a proposta éfazê-lo esquecer que não está com o original ou, pelo contrário, torná-loagudamente consciente de que tem diante de si um texto que passou poruma operação interpretativa, criativa, crítica e interventiva? Dizem queum dos prazeres da velhice de Goethe era ler-se na tradução do Gérardde Nerval. Ele achava que, em alguns momentos, Nerval tinha ido alémdele e o superado. Há também casos como o de Rosa, que acompanhoulaboriosamente o trabalho de alguns tradutores, às vezes até corrigindo.Por exemplo: ele recebia a tradução do alemão antes da publicação, elogiavamuito, mas mexia em quase tudo.

Émilie – A teoria da tradução discute as duas opções. Na França, podeacontecer de algumas editoras optarem por não suscitar no leitor umestranhamento muito grande, do ponto de vista ideológico e poético.Particularmente, gosto de imprimir minhas marcas de traduçãono texto. Afinal, nesse processo de pesquisa, escrita e reescrita, soucoautora da obra. Acho interessante dar voz a quem traduz, por quenão? Mesmo que seja numa nota de rodapé. Não sou muito adeptade acrescentar notas em tradução, porém acho justo o leitor tomar consciência de que está lendo um livro arduamente trabalhado peloconsciência de que está lendo um livro arduamente trabalhado peloescritor e, depois, arduamente retrabalhado pelo tradutor.

Sophie – Acho desgastantes as negociações, entre editores e tradutores,em torno da permanência ou não, na versão final, do olhar dotradutor acerca do universo do texto original. A chave dessa mediaçãotalvez seja a boa vontade, de ambas as partes, em encontrara intenção do autor, em ir além do que simplesmente está sendodito no escrito. É evidente que há uma enorme diferença entretraduzir um livro que se pretende de entretenimento e traduziruma obra cujo exercício com a linguagem é levado ao extremo. JoãoGuimarães Rosa, aqui no Brasil, inventou uma língua. Como deixarde lado esse detalhe fundamental no momento da tradução? Nessesentido, o olhar do tradutor é imprescindível. Não apenas o olhar,mas seu sentimento quanto à intenção do autor.

Tamara Amaral (UFRJ)Minha linha de pesquisa, aqui na Faculdadede Letras, se direciona ao uso da literatura na formação docente. Paravocês, que são estrangeiras, em que a literatura brasileira contribuiu parao aprendizado de nossa língua e a familiarização com nossa cultura?

Sophie – Não tenho a menor dúvida de que a literatura foi essencialpara que eu me interessasse, conhecesse, admirasse a língua e acultura dos brasileiros. A literatura me parece uma das ferramentasmais eficazes quando se trata de tentar compreender o mundo. 

Émilie – Para mim também a literatura teve um papel preponderanteno aprendizado da língua e da cultura brasileiras. Mas o fato de eu morar aqui me fez conhecer de perto, na prática cotidiana, ode eu morar aqui me fez conhecer de perto, na prática cotidiana, oque de fato significa ser brasileiro, falar e agir como tal. Isso ajudamuitíssimo na tradução.

Gregory Costa (UFRJ)Em seu trabalho com a linguagem, GuimarãesRosa fez uso de uma série de métodos de formação de palavras para, a partirdisso, realizar uma infinidade de combinações diferentes. A linguagemsoa inusitada, como se fosse um idioma novo, ao mesmo tempo que ecoamodos de fala típicos do sertão mineiro. Pergunto a vocês: como traduzir,por exemplo, a palavra “nonada”, que abre Grande sertão: veredas,preservando a capacidade, presente nos textos rosianos em português, deforjar a fala do sertanejo alçando-a, também, à categoria mitopoética?

Émilie – Todos sabemos do desafio que Guimarães Rosa representapara os tradutores. Na França, Grande sertão: veredas teve duastraduções: a primeira em 1972 e a segunda em 1999. Em breve,vai sair uma terceira tradução. Se lembro bem, o primeiro tradutordeixou “nonada” em português e a segunda tradutora traduziupor “Que nenni”, que é um belo achado. Prova da complexidade dotrabalho do tradutor é a necessidade de destrinchar a aglutinaçãoque Rosa faz de palavras de várias regiões e tempos históricos domundo. Ao tradutor cabe se aprofundar no estudo de todas essaslínguas, antes de escolher a expressão mais adequada à transmissãoda poeticidade do autor.

Sophie – Nunca traduzi Guimarães Rosa, mas creio que qualquertradutor, não sem muito esforço, consegue romper as fronteiras doimpossível que obras como a dele impõem. É possível encontrar, no processo de tradução, um ponto de equilíbrio entre os significantesprocesso de tradução, um ponto de equilíbrio entre os significantese significados do original e da língua para a qual ele é transposto.

Cintia Lopes (UFJF)No momento vocês estão desenvolvendo algumprojeto de tradução da ficção brasileira contemporânea?

Sophie – Eu realmente adoraria traduzir a poesia e a prosa de HildaHilst, mas tenho consciência de minhas limitações. Portanto, precisopesquisar mais um pouco, conhecer mais a literatura brasileira,então dar o primeiro passo nesse sentido.

Émilie – Estou envolvida com a tradução de uma antologia de contosÉmilie – Estou envolvida com a tradução de uma antologia de contosproduzidos nos séculos XIX, XX e XXI. Em nossa lista, há muitosescritores brasileiros importantes e que nunca foram traduzidospara o francês, como Autran Dourado, José J. Veiga, João do Rio,entre outros.

Eucanaã Ferraz (UFRJ)Carlos Drummond de Andrade dizia nãodesejar o Prêmio Nobel porque achava muito ruins as traduções de seustextos. De fato, elas estão muito aquém de sua grandiosidade poética.À obra de muitos autores brasileiros não foi feita a devida justiça noexterior, onde se produziram traduções um tanto precárias, que resolveramde maneira não muito feliz os problemas apresentados pelo textoe, de um modo ou de outro, acabaram se perdendo. Da mesma forma quea excelente tradução da obra de Clarice Lispector lhe rendeu estudos naEuropa e na América do Norte, uma má tradução pode ser danosa para arecepção de um escritor pelos leitores estrangeiros. Como há um númerocada vez maior de traduções de romances, contos, poemas e ensaios brasileiros para outras línguas, eu gostaria de saber se vocês acham quebrasileiros para outras línguas, eu gostaria de saber se vocês acham queuma tradução antiga ajuda no trabalho de tradução atual, se serve comomaterial de consulta, se possibilita um estudo comparativo.

Sophie – Algumas vezes, traduzi obras importantes, canônicas,bem posicionadas na história da literatura, que já haviam recebidotradução no passado. Poder perceber a diferença entre minhaabordagem e a dos tradutores anteriores me ajudou muito no processo.Acredito que retraduzir não é apenas consertar as possíveisincorreções dos trabalhos anteriores, mas principalmente aproveitara oportunidade de conectar a obra antiga ao momento atual.Nesse sentido, o tradutor é um operário capaz de devolver fôlegoà obra; que pode, digamos, ajudá-la a escrever mais uma página desua trajetória histórica. Para tanto, é fundamental usar com muitaconsciência as traduções anteriores. Respeitá-las é essencial paraque o trabalho flua e seja bem-sucedido.

Émilie – É notável a diferença entre o trabalho de um profissionalque acompanha a linha do tempo da tradução e o de outro que não ofaz. A mim interessa a abordagem baseada no estudo das traduçõesantigas. Aliás, estamos produzindo na França uma história dastraduções, um projeto inédito e inovador que pretende render as devidasloas aos tradutores e às traduções, da mesma maneira que existe ahistória das literaturas nacionais (para os textos originais). Participeido capítulo das traduções de obras da América do Sul. Esse trabalhocoletivo é extenso, demanda muito tempo de pesquisa e produçãoexaustivamente minuciosa. Mas decerto será determinante para queas gerações futuras não apenas reconheçam e admirem o ofício do tradutor, como se sintam motivadas a trilhar esse caminho, a fim deque as obras literárias do mundo perdurem, refinem a sensibilidade eenriqueçam os saberes de todos, sem distinção.

 

Grátis 3 Batmakumba no Rivalzinho

Grátis 3 Batmakumba no Rivalzinho

  • Divulgação
Você já foi à Batmakumba, nega? Não? Então vá! ;) A Festa Batmakumba é exclusivamente dedicada à...
BLESS Santa Teresa - Sexta 31/01

BLESS Santa Teresa - Sexta 31/01

  • Divulgação
B.L.E.S.S. - Baseado nas Leis Estabelecidas pelo Sistema de Som. Hoje anunciamos a primeira BLESS...
Junta Local de Verão na Casa Firjan

Junta Local de Verão na Casa Firjan

  • Divulgação
Durante os próximos quatro finais de semana (18, 19, 25 e 26 de janeiro e 1, 2, 8 e 9 de...
Invasão Reggae Na Garagem - Verão 2020

Invasão Reggae Na Garagem - Verão 2020

  • Divulgação
Invasão Reggae NA GARAGEM #Verão2020 Dia 09.02 As 4;20 hs Até 00hs É a cultura #ReggaeRastaRoots...
Pré-Carnaval Afrofuturista no Saravá Bien

Pré-Carnaval Afrofuturista no Saravá Bien

  • Divulgação
Sexta-feira, dia 07/02, às 22hrs, estão todos convidados para o Pré-Carnaval Afrofuturista! O...
Curso/Vivência: “A Magia das Plantas que Curam”

Curso/Vivência: “A Magia das Plantas que Curam”

  • Divulgação
Curso/Vivência: “A MAGIA DAS PLANTAS QUE CURAM” Data: 21 e 22 de dezembro de 2019 – Sábado e...
Mulheres de Chico 14 Carnavais!

Mulheres de Chico 14 Carnavais!

  • Divulgação
No dia 12 de Dezembro o Mulheres de Chico faz show no Teatro Rival comemorando 14 Carnavais. O...
Tributo à Marinês Edição Comemorativa - 5 anos

Tributo à Marinês Edição Comemorativa - 5 anos

  • Divulgação
O projeto Tributo à Marinês completa em 2019 cinco anos de resgate ao legado dessa inspiradora...
Lançamento digital do CD Juntos de Reppolho & Ednaldo Lima.

Lançamento digital do CD Juntos de Reppolho & Ednaldo Lima.

  • Divulgação
A partir desta data está disponível em todas as plataformas digitais o novo disco de Reppolho &...
Canja Carioca ao vivo na próxima quarta

Canja Carioca ao vivo na próxima quarta

  • Dica da Canja
Quarta que vem está de volta a Canja Carioca - o som do Rio ao vivo a partir de uma da tarde em...
Dica da Canja - Rosana Sabeça na Baden Powell

Dica da Canja - Rosana Sabeça na Baden Powell

  • Dica da Canja
No próximo sábado, 25/08 Rosana Sabença apresenta seu novo trabalho na Sala Baden Pawell a partir...

O que é a agenda 2030 da ONU?

  • Transmita
Segundo o site da ONU “A Agenda 2030 é um plano de ação global para em 2030 alcançarmos o...
Pré-lançamento do projeto É UMA VEZ (pocket show)

Pré-lançamento do projeto É UMA VEZ (pocket show)

  • Música
O Cantor, ator, diretor, compositor... (em fim o cara é completo e genial) Mauro Menezes se...
Dica da Canja - Sarau com Soul Guanabara

Dica da Canja - Sarau com Soul Guanabara

  • Dica da Canja
O "Coletivo somos da Lapa", em parceria com Cine Teatro Oscarito, apresentam o Sarau com a Banda...
Dica da Canja - Sal do Samba no Cortiço Carioca

Dica da Canja - Sal do Samba no Cortiço Carioca

  • Dica da Canja
No próximo sábado 18/08 Adriana Passos desfila a variedade dos ritmos brasileiros no Cortiço...
Reggae Revival

Reggae Revival

  • Música
Da mesma época da formação de bandas como Afroreggae , O Rappa , Planet Hemp , Chico Science e...
"FILE" Festival Internacional de Linguagem Eletrônica.

"FILE" Festival Internacional de Linguagem Eletrônica.

  • Artes Visuais
As novas tecnologias marcam as atuais dinâmicas de comportamento: com a possibilidade de...
Martinho 8.0

Martinho 8.0

  • Música
MARTINHO DA VILA GANHA HOMENAGEM NO TEATRO. O cantor, compositor e escritor, Martinho da Vila, que...
Circo Mimos

Circo Mimos

  • Artes Cênicas
Sinopse: Circo Mimos, um espetáculo surpreendente para toda a família! Uma viagem ao teatro...
Miolo

Miolo

  • Literatura
A escritora Giulia Ramos lança o seu segundo livro de poemas, "Miolo" pela editora Kazuá. A noite...